ÚLTIMAS UNIDADES,arte contemporânea 2021/2022

Evocando uma frase habitual nas publicidades dos empreendimentos imobiliários, Últimas Unidades é um conjunto de trabalhos que apontam  negociações na relação com o meio urbano, nas relações de resistências aos avanços da especulação imobiliária. Nas pinturas, eu escolho colocar em primeiro plano  plantas sobreviventes às transformações do espaço urbano submetido a apagamentos contínuos.  Aqui trata-se muito mais de uma negociação interna com a transformação inerente da cidade, da perda constante de elementos referenciais das memórias afetivas  estabelecidas com o entorno, com aquilo e aqueles que fazem o entorno tornar-se familiar. E ao mesmo tempo, é uma reflexão sobre a inevitabilidade da mudança  como elemento primordial da existência.

No caso, eu também opero apagamentos no sentido inverso do que ocorre na realidade. Eu opto por um processo de esmaecimento do fundo que retrata prédios, guindastes e caminhões de forma a ficarem em segundo plano.  Estes fundos se colocam como ícones da dinâmica de destruição de “arquiteturas insignificantes” (não monumentais, anônimas, cotidianas)  cuja destruição afeta histórias pessoais e força migrações internas na própria cidade, reconfigurando-a no sentido material e humano . O apagamento se coloca como uma crítica às  políticas públicas que se colocam muito mais alinhadas ao poder econômico das grandes construtoras em detrimento de uma configuração urbana amigável ao pedestre e com respeito aos marcos históricos de caráter não-monumental,  como se vê e se convive normalmente na  cidade, com sua diversidade de casas e arquiteturas peculiares de suas épocas respectivas.

 

Ao retratar em destaque as plantas do meu entorno, a série evoca uma relação afetiva possível  com a paisagem urbana ainda que a cidade se coloque como  espaço que mais repele do que acolhe. Assim, esta série opera no sentido de resgate de uma relação sensível ao meio, como um apaziguamento interno do processo da inevitabilidade da mudança. Cada planta que eu pinto, eu estabeleci de alguma forma, algum tipo de conexão contemplativa. Com esta série eu quero evocar no outro um olhar sensível e colocar a pintura como meio para uma relação de transcendência, da possibilidade de encontrar um sentido no incontrolável.

 

Os títulos das pinturas são nomes de plantas mas também são nomes de pessoas. Essa escolha evoca a ideia de  retrato, entendido como uma representação afetiva de alguém Não usei os nomes científicos das plantas em questão, pois não se trata de um destacamento devido às suas características genéricas de espécie biológica, mas sim dessa relação afetiva que eu estabeleci com esses seres de resistência.